A Fagocitose da Famosidade

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Fagocitose das bactérias botons


Por Lígia Cargnelutti


Outro dia (embora noite fosse), enquanto lambia rimas de um poema carinhoso feito por notável personalidade, subi no bonde da distração e me deixei levar até onde os pensamentos tolos podem ir: infinito.

Em um desses pensamentos me ocorreu que o poeta é canibalizado por uma tribo de perversas palavras, aprisionando-lhe a alma até que o divino do seu ser seja expelido, esvaído em sangue de tinta nas linhas e letras esparramadas na carne de papel. Assim, um poema é desfazer-se de sua própria composição, seu criador. E é renascimento toda a vez que alguém o recita, deixando a voz dar vida outra vez.

Pensei na grande lista dos poemas favoritos que desde a infância me inspiravam. Pensei nos seus criadores e no tanto de devoração* entre palavras para que um sentir sozinho pudesse ser repetido tantas vezes quanto preces em uma procissão, e assim ser compreendido.

Sempre achei que ler fosse ingerir um tanto de alma, de inspiração, talvez, da divindade de quem escreve. Às vezes o gosto é de amor, de saudade, de compaixão. Outras vezes é de ódio, de frustração, de desesperança.

Então pensei nos milhares que escrevem anonimamente, sem noite de autógrafos, nos bastidores da vida, sem nome no jornal, sem ninguém faminto de lhe desvendar. Apenas anônimos ignorados no mar infestado de enganadores, falsários da própria vida, aspirantes à notícia.

E a fome da fama engolindo a luz do que é bom, do que é belo, do que ilumina. Sem nada a devolver ao mundo, tão somente páginas cada vez mais vazias, daquelas que não se devora nem a vírgula, quem dirá a rima.

* Devoração: aquela palavra tão Djavan na melodia que serve para a vida.



Imagem: Superbug

Poderia

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[Por Fernanda Kurunczi]

Poderia
Como num Estalar de dedos
Dizer de tudo que vi
De tudo que vivi
De tudo que sorri
Sem você.
E que os dias me trariam
Muito mais que um alivio
Um sorriso
Um resquício
De liberdade da alma.
E como num instante
Já pudesse ser só minha
Já pudesse caminhar sozinha
Já pudesse dizer: agora sou apenas eu.
Agora sinto
Amor por mim
Vontade de mim
Saudades de estar cada vez mais perto de mim.
E enfim, e só enfim, sentisse que agora tudo já estaria tão mais meu, e não seu.
Parece que agora sinto aquela mesma brisa do mar daquele julho, e tenho medo.
De ser tão igual ou tão diferente.
Tão seu ou tão meu que doa no olhar.
Mas que esse mesmo olhar dolorido não se perca de nós, nem por um segundo tão breve que me soe sem fim.
E que, nem por um segundo deixe de existir nós no meu, tão seu, sem fim.
E que nenhum momento passe tão despercebido que nos faça deixar de crer naquele acaso que nos fez chegar aqui e que nos faça desacatar todos aquele inúteis nós de lá trás.
Por isso tenho medo de acreditar que pode ser tão nosso, ou que já não seja de mais ninguém.
E que todos esses suspiros já não sejam mais nossos, ou sejam tão nossos que nos faça morrer sem ar.
Espero que não seja tão vago se perder assim, ou se achar tanto assim. Espero que não caiba nem ai, nem aqui. Que não caiba em mais nenhum lugar.
E se assim for, esteja sempre por aí, pra mim e pra você.
Esteja ai para qualquer coisa que nem seja daqui, nem dai. Nem de lá e nem de nenhum lugar.
E mesmo sem que eu pudesse te achar, te perdi na mesma esquina e no mesmo olhar.
E fiz mais três mil poesias pra te ligar pra dizer que "os passarinhos já não cantam se não estas".
E por fim, não cabe a mim
Dizer do fim de tudo aquilo que nunca coube aqui.

Amores imortais

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[Por Carol Freitas]

Mesmo parecendo um enorme clichê, daqueles de novela mexicana, amores verdadeiros realmente não morrem. Nunca. E quando este amor tem como objeto aquele negócio sagrado chamado livro de papel, aí é que não morre mesmo. Sei que já foram muitas as discussões a respeito do morre-não-morre dos exemplares cheirosos das gráficas, desde o advento de todas as tecnologias que nos possibilitam outra forma de disfrutar de uma boa leitura.

Eu, particularmente, não gosto de ler no computador. É ruim, desconfortável, e não dá pra levar o computador pro ônibus. Só aí ele já perdeu uns dez pontos comigo. Mas daí inventaram um milhão de possibilidades mais viáveis e,  há pouco tempo, me rendi a um e-reader e ando feliz com mais de 100 livros na bolsa. Quando me seria possível passear com tantos livros assim diariamente? Outro dia, uma amiga me viu usando o brinquedinho e eu ouvi um sonoro: ‘logo você??’. A expressão se deve ao fato simples de ser eu uma apaixonada por livros, daquelas que se pudesse moraria numa livraria, estudante de literatura, a surtada dos sebos da cidade e interessada em todo o tipo de escrita. Mas mesmo tendo aderido à tecnologia, sim, eu continuo amando os livros e, sim, eu tenho plena certeza de que obviamente eles não vão desaparecer, como aconteceu por exemplo com o vinil, que sumiu das fábricas depois dos cds. Agora eles estão voltando, mas ocupando uma categoria mais vintage, mais ‘artigo de colecionador’, mas tiveram seu momento de pausa. Com os livros julgo ser impossível um acontecimento desses (acabo de escrever esta frase dizendo amém para cada palavra).

Quem gosta de livros sabe que esse gosto vai além da leitura. Ele paira placidamente sobre cada detalhe que compõe o objeto. A capa, o tipo de papel, a edição, tudo faz com que ele se torne especial. Quem não tem vários livros ‘iguais’, mas sendo eles de edições, coleções, editoras diferentes? Quantos de nós não temos vários exemplares que nem tivemos tempo de ler ainda, mas que foi quase impossível passar por eles na livraria e não comprá-los? E o que dizer do charme e da elegância decorativa que eles imprimem ao ambiente? Quem conheceu a história do Chico, o livreiro da Universidade Federal de Brasília, vai entender perfeitamente a questão. Aquilo ali é amor, sem exageros. Acredito que nenhuma discussão sobre a substituição dos livros físicos por livros digitais leva esse tipo de coisa em consideração, por isso ela anda tão acirrada.

Não sei qual é a visão de mercado para isso, não estou por dentro de nenhuma pesquisa estatística a respeito e não me interessa muito o mérito da questão. Ler é uma das atividades mais interessantes e prazerosas que eu conheço, independente do veículo. Minha estante portátil de e-books terá sempre a mesma importância da minha estante física de livros; boa leitura sempre ao alcance das mãos. O que imortaliza a condição de existência física do livro não é uma relação comercial e nem um tratado de avanço tecnológico; o que o imortaliza é o amor e a importância impressos nele e que despertam o simples desejo de tê-los sempre por perto. E, não, não é preciso criar nenhuma ong de salvação e nenhum protesto mundial: o livro físico não é um candidato à extinção. Ele não vai morrer. Bom, pelo menos no que depender de mim.


Vazio

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[Por Fernanda Kurunczi]

A sensação de estar só, sem poder dividir, multiplicar. A sensação de ser apenas um, quando se quer ser dois em um. 
Vazio é estar sem nada. Nem bom nem ruim, nem quente e nem frio. Está vazio por aqui. 

O que um dia esteve completo, agora é apenas lembrança e saudade.
O que um dia esteve inteiro, agora é só pedaço, metade. 
Aquilo que se prometeu e que sonhou agora parece poeira espalhada pelo chão da vida. Nem lá, nem cá. Vai varrendo pra debaixo do tapete, deixando escondido pra não incomodar mais. E quando está tudo assim, vazio, a gente volta lá pra ver e remexer em tudo que estava guardado e que, infelizmente, nunca conseguiu ser jogado fora. Ser vazia me traz a sensação de querer voltar a um lugar que nunca existiu, e reviver fantasias e historias que nunca saíram do papel. Ser vazia me traz a vontade de ser cheia e completa novamente, ainda que não exista a paz do coração. 

Estar vazia me faz refazer os mesmos erros, sabendo que não há mais como acertar o mesmo alvo. Me faz andar pra trás, querer reviver um passado que nunca existiu. Me faz ficar parada e com 38 graus de febre nessa noite fria de domingo. Estar vazia me impede de ser quem sou, já que meu combustível de sorrisos tem nome de amor. Só quem já foi inteiro, sabe o medo que dá ser metade de novo. Só quem já se viu completo, sabe a angustia que dá no peito de não poder sorrir sem motivo, não poder achar a graça do domingo a noite. E eu, mesmo que nunca tenha aprendido a ser inteira, sinto medo de estar assim, tão só. Ser vazio é ser em vão.

*Ilustração Fernanda Kurunczi

Prazer

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[Por Carol Freitas]


Assisti ao espetáculo ‘Prazer’, baseado na obra de Clarice Lispector, e tive a grata surpresa de ver que a companhia teatral Luna Lunera, de Belo Horizonte, conseguiu fazer uma ótima leitura dos seus trabalhos. Tudo que se baseia na obra de Clarice gera uma grande expectativa e, ao mesmo tempo, um certo medo, já que ela é conhecida pela sua complexidade e profundidade. É impossível ler algum de seus livros e não se lembrar da tão famosa ‘quarta dimensão’ que ela atribuía às palavras e, consequentemente, não tentar projetar a leitura para este espaço imaginário na intenção de alcançá-la. Talvez esteja aí o erro de quem se aventura em sua leitura: tentar entender algo de extraordinário, de impossível, ou de insolúvel ‘escondido’ ali. Sendo assim, acabamos por esquecer que talvez seja o olhar mais simples que vai revelar alguma coisa. Mas, simples ou não, com um cenário muito criativo, a peça mostra exatamente que é possível alcançar o mundo  paralelo de Clarice e trazê-lo à tona de maneira satisfatória e tirar dele propostas inteiras de autoconhecimento e questionamentos, muitas vezes pessoais e, logicamente, intransferíveis. 





A melhor sacada do espetáculo, creio eu, é a de não polemizar e não complicar ainda mais o entendimento de um trabalho que já é exigente por si só. Há nele um convite sincero para quem não conhece o trabalho de Clarice Lispector a saber mais sobre a escritora, e um outro convite, para quem já é íntimo dele, para reconhecer em cada parte do espetáculo uma proposta de um novo olhar sobre as tão intrigantes reflexões da autora. ‘Prazer’ é um resumo muito interessante, bem feito e consciente dos escritos de Clarice Lispector, além de lançar, literalmente, uma luz sobre o universo tão mítico que a cerca.


A peça está em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro e fica por lá até o dia 06/06. É apresentada de quinta a domingo, às 19h – R$ 6,00 (inteira)

Pílulas diárias de amor

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[Por Lígia Cargnelutti]

Eu quero falar da vaidade. Não aquela loucura desmedida buscando a perfeição física. Quero apenas falar daquelas pequenas coisas que tornam as pessoas mais bonitas para si mesmas. Das rápidas olhadinhas no espelho, nem que seja o reflexo de uma vitrine na rua enquanto você tenta segurar o guarda-chuva e falar ao celular. Dos dedos alisando o cabelo em busca do caimento perfeito que aos outros não faz a menor diferença, mas só você sabe que ficou bem melhor. Sem falar daquele hidratante novo que está gritando na sua bolsa pedindo que chegue logo em casa para experimentá-lo. Dos hidratantes que nem lembramos que proporcionam uma pele mais macia, mas que amamos por que nos permitem o carinho na própria pele. E quando o dia acaba, é hora de se entregar àquele trio maravilhoso banho-cremes-descanso. Olhar no espelho embaçado pelo vapor quente do chuveiro e desenhar um sorriso de quem está de bem consigo mesma.

Vaidade do tipo que não se importa com padrão algum. Vaidade que mora no sorvete de chocolate ou na barra de cereal, por que a única caloria que entende é o calor humano da alegria. Ser vaidosa sem propósito algum, sem precisar agradar a ninguém. Ser vaidosa nas pequenas coisas do cotidiano e deixar a vaidade ter o tamanho suficiente para levar consigo sem lhe fazer qualquer peso.

Longe das imagens de bonecas e princesas, quero ter a beleza de ser mulher. Que as cores dos batons e da tinta de cabelo tenham para mim o mesmo prazer de uma criança colorindo seus desenhos. Que seja leveza e nunca obsessão. Que meu intuito de estar bonita seja para iluminar o dia de todos e não para brilhar tanto até que ninguém mais consiga olhar para mim. Que meus próximos sapatos sejam para testemunhar meus passos importantes na vida e jamais para pisar em quem está perto de mim.

Enfim, falo de vaidade como aquela parte de quem me tornei e da qual posso ter orgulho de ser.


Inércia programada

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[Por Carol Freitas]


Dos discursos demagogos e hipócritas que a gente costuma ouvir por aí, o que mais desperta o meu olhar de egípcia é aquele de quem julga cada atitude do outro como fator decisivo para as mazelas do mundo. Qualquer meia opinião ou meia atitude em benefício próprio já te transformam num monstro terrível, sem alma e coração, egocêntrico e sem a menor preocupação com o universo.

Manifestei, em uma rede social, no melhor estilo desabafo pessoal, a minha insatisfação com o serviço de vendas de ingressos para um festival de música, coisa que muitas outras pessoas fizeram também, e pronto: bastou isso para aparecer um bando de cidadãos perfeitos desfiando um verdadeiro rosário de coisas do tipo: ‘se a população se preocupasse mais com a educação, com a fome, com o desemprego, com a saúde e etc, etc, etc, mas estão reclamando porque não conseguem um ingresso...que país é este, ó céus, ó vida!’. E, antes disso, quando a cantora famosa assumiu seu casamento com outra mulher, o que não faltou foi gente para dizer que ela estava desmoralizando o conceito de ‘família tradicional’, que o país está sendo dominado por este ‘tipo’ de gente e coisa e tal. Suspiro profundo de preguiça.

Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza(!), né? Mas sei muito bem que ele faz parte do terceiro mundo, é subdesenvolvido, tem sérios problemas políticos, e a lista, se eu for continuar, crescerá e muito. Eu me preocupo e me mantenho inteirada das coisas que acontecem por aqui, mas aí deixar de viver, deixar de sonhar, deixar de me divertir e viver uma vida de resignação e me sentir culpada cada vez que a minha maré for contrária à realidade dele, não. Não, mesmo. Não, três vezes. Os problemas pelos quais o país passa, desde que Cabral aportou por aqui, não serão agravados e nem passarão a ser menos importantes por causa da minha vontade e a de mais um monte de gente de assistir a um showzinho de rock, nem pelo casamento entre duas mulheres. 

Para falar a verdade, eu não tenho e nem nunca tive pretensão nenhuma de salvar o mundo. De salvar nada mesmo. Nunca me imaginei nem tentei estar à frente de nada para trazer mais alento à nação. Acho que se tivesse nascido super heroína, eu ia ter um treco daqueles de saber que eu tinha que sair da minha bat-caverna, ou de qualquer outro esconderijo secreto para garantir a existência de terceiros. Tenho consciência de que isso não é nada louvável, mas não há problema algum: não tenho interesse nessa área mesmo. Nem vou ter. O meu teste vocacional deu outro resultado. Mundo por mundo, prefiro passar os dias salvando o meu. A minha existência. Quando dá até salvo outras, mas é por pura displicência mesmo e por elas fazerem parte da minha, então acabam entrando no pacote. E isso não é egoísmo. Exageros à parte, será que é tão difícil assim entender que cuidar da sua própria vida, estar em dia consigo mesmo já dá uma baita ajuda para todo o resto? E reivindicar um servicinho melhor de entretenimento e lazer não transforma ninguém em um louco alienado, pode ter certeza. Isso é saudável. O que não é saudável é ser radical a este ponto, isso não resolve nada. Ser (apenas) ativista virtual, também não. Julgar as atitudes alheias, menos ainda. Ah, e panfletar o seu autoflagelo e ultraje por essas mesmas atitudes é nauseante. Autopromoção com humanidades me fazem ter muitas dúvidas a respeito do seu espírito solidário.

Sim, eu posso até lutar por um direito coletivo, mas também quero uma diversão individual. Sim, eu quero um país limpo, seguro, com a educação em dia, mas também quero dançar o dia todo numa festa e não ser taxada por isso. Quero viver num Brasil civilizado, onde as relações sejam verdadeiramente livres e respeitadas em todas as suas formas, e que isso seja problema de cada um e não uma afronta social. E quero continuar acreditando no amor, na igualdade, na liberdade de expressão e claro que, consequentemente, em milagres também.

*Imagem

Livro: A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector

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A Paixão Segundo G.H.
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ano: 2008
♦♦♦♦♦


Sempre taxado de "difícil" (o que realmente é), o livro de Clarice não possui uma trama e se concentra muito mais em questões filosóficas sobre do que somos feitos nós seres humanos. O ambiente é o comum em Clarice: mulher da classe média alta, com uma vida comum. Até que se depara com um ponto de ruptura: a barata no armário - velha, antiga, pré-histórica. O próprio quarto onde ela encontra a barata, o quarto da empregada, um lugar onde ela nunca vai e imagina estar entulhado de bagulhos (comentando aí o preconceito de classe) é o local que está "suspenso da realidade", metaforicamente um portal que a leva para o desconhecido, em busca do seu eu primitivo, em um processo de autoconhecimento através do sacrifício. Toda a epifania está distribuída em 33 capítulos - aludindo aos 33 anos de Cristo.

A passagem em que GH de fato come da barata (e não a barata) é rápida, indolor e mostra o ápice da desconstrução de si mesma em busca de descobrir sua verdadeira essência para chegar a uma conclusão em nada decepcionante. Ainda que seja o melhor de Clarice, onde a autora atinge a excelência no método que era apenas promissor em Perto do Coração Selvagem, o livro não é indicado para o leitor médio que nunca teve contato com a obra de Clarice e a melhor ilustração de que isto é verdade vem de um comentário feito no grupo de leitura onde uma moça disse ter achado o livro "estranho e difícil" e estava decepcionada porque tinha "muitas expectativas sobre esta escritora" por ter gostado de diversas frases que lera nas redes sociais. 

Next generation

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[Por Carol Freitas]

Mesmo não sendo assim tão jovem, já faço parte de uma geração aí que eu não sei qual é.  É um tal de ‘geração y’, ‘geração Z’ que,  entre tantos símbolos para marcá-las, escolhi o meu: ?. Isso mesmo, sou da ‘geração interrogação’, sendo mais clara. E eu chamo isso de eterna next generation. E o que incomoda? É que o eterna virou sempre, e o sempre quase sempre uma cópia. Estamos sempre esperando o next para ser nosso.

Ouço de algumas pessoas relatos saudosos de seus tempos áureos, acompanhados de histórias genuínas, de exemplos cronologicamente corretos e coerentes. Eles se encaixam em suas respectivas gerações; eles fizeram parte dela. Quando penso nas gerações mais recentes vejo que elas se escoram descaradamente nesse orgulho antepassado, vivida em uma época que pode ser simbolizada pelos nossos pais. Somos releituras da moda que nossas mães usavam, ouvintes das músicas que eles ouviram. Somos tradicionais de uma tradição que não é nossa. O curioso e lógico disso tudo é que essa não é uma maneira de negativizar esse legado que nos foi deixado, mas questioná-lo culturalmente. Não lastimo um jovem de 18 anos ser hoje apaixonado pelo Elvis ou fã de carteirinha dos Beatles, nem me entristece o fato de que Elis seja uma das cantoras mais reproduzidas nesses programas de calouros por aí, pelo contrário, eu mesma sinto muito por não ter nascido a tempo de participar da plateia de alguma das edições do Festival Nacional da Canção. Isso mostra que o talento e o trabalho deles tiveram conteúdo e qualidade para resistir ao movimento de passagem do tempo. Apenas me pergunto, com uma frequência maior do que a normal, o que a nossa geração vai deixar de herança cultural, intelectual e moral para nossos descendentes.

Quando  Andy Warhol  disse sua famosa frase em que afirmava que um dia todos teriam seus 15 minutos de fama, acho que nem ele acreditava que o literal desse pensamento aconteceria com tanta força. Vivemos em um tempo de efemeridades, de fatos antigos, de coisas que envelhecem numa velocidade superior à da luz: a gente desfruta, mas não eterniza. Atribuir tal acontecimento à qualidade ou mais especificamente à falta dela, é inerente a qualquer observação mais atenta. Nossa geração fria suga seus ídolos e suas ‘obras’ a ponto de não sobrar nada para se guardar. E a internet esta aí para, talvez, tentar guardar, cultivar e nos deixar sempre à mão as pesquisas mais completas (mas não rimando aí com as mais corretas) a cerca de tudo o que aparece. Mas aparecer só não basta. A qualidade do que se produz hoje é altamente questionável, o que justificaria essa nossa necessidade silenciosa de mergulhar no baú do passado.

Essa nossa nova posição, de meros consumidores de arte express, tem que ser revista. Somos uma geração em movimento: movimento do caranguejo. A gente olha e volta para trás, fecha os olhos e esquece o caminho à frente. E ainda tentamos nos confortar na palavra ‘retrô’. De novo, o cabelo é retrô, a moda é retrô, a música é retrô, e o pior de tudo: a gente acha que ser retrô é super atual. Normal isso num tempo em que os versos de algumas canções são irreproduzíveis, e cantores e artistas surgem a cada 10 minutos na grande rede. Não rejeito, mas me assusto.
Saudosismo, exigência demais, renegar o presente: podem dar o nome que quiserem.  Apenas não acho interessante fazer parte de uma geração que vai ficar sem registro no tempo e que corre sério risco de ser uma geração de ‘qualquer coisa’.

Estrada

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[Por Fernanda Kurunczi]

O desenho se confundia com a paisagem. As linhas tortas, mal feitas confirmavam o que por horas queria ter dito: queria estar e ficar. Queria permanecer em tudo aquilo que não era meu. E se meu fosse, não seria assim: tanto. 

Limito-me a dizer que se pertencesse a mim, poderia ser bom e quem sabe durável. E não que não fosse meu, mas naquele instante, só tinha céu, sol e nuvem. 
Insisto em dizer, quase me recordando completamente do papel e da caneta correndo sem direção, já assim como nós. Querendo fugir ou correr pra um lugar sem nome, que certamente não era aquele do nosso destino final. Incomodava só de ver. Pensar era mais difícil ainda. 

Cada linha torta do meu desenho tem um pouco de você, e nada de nós, já que a história poderia ser contada de outro jeito. Cada linha torta refletia seu pé pesado, sem lei, sem pudor. Pés estes que justificavam a condição de ser e estar naquele breve momento que me parecia único e raro. E era. 
Raro pela paisagem e pela eternidade previsível do olhar. Único pela incerteza de não poder ser só, quando se quer ser dois em um, todos em um. Nasceu então a flor. Que podia ter nome de amor ou de dor. E não que doesse, mas não era bom ou suficiente ser meio. Queria inteiro e completo. 
A flor, que podia ter nome de gente, ter cor de real, se limitou a ser levada pelo compasso que levavam seus pés. Incessáveis e constantes de um caminho que, por ora clareava, por ora escurecia. Por ora breve, por outras imenso. 

E se limitou a seguir o compasso do som, do vento e da velocidade daquela estrada com fim.


*Imagem

Fernanda Kurunczi. 20 anos, 5 escrevendo e o resto do tempo sentindo até latejar. Adora desenhar e já comprou a capa de super mulher para sair voando por aí, com textos lindos embaixo do braço.

Meu Ócio Criativo

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[Por Lígia Cargnelutti]


Estava eu estacionada ao longo da avenida chamada vida pensando na morte da bezerra enquanto o agente de trânsito de nome Destino surge com multa em punho e olhar acusador. Um daqueles fatos que nos obriga a mexer as pernas e impulsionar o corpo para frente. Alguém chega e bate no vidro te lembrando de que os outros estão passando à sua frente.

O mundo te obriga ao movimento. Parar é proibido. E eu parei sob o pretexto de um brainstorm sem qualquer objetivo. Bateu aquele cansaço de ser útil e fazer coisas úteis em tempo integral. No final do dia você está na exaustão de ter acumulado ações que já nem sabe mais o porquê de ter feito. Por qual razão trabalhei até mais tarde? Por que fiquei com dor no estômago ao terminar aquele relatório? Qual era o motivo de deixar o jantar de lado para concluir um trabalho? Não lembro, simples assim. De repente, perdi o foco dos objetivos.

O cansaço é o pedágio dessa via tumultuada que mais parece um labirinto de rotinas. Todo dia e um dia após o outro. Cansei de ver a mesma paisagem de muros. Então parei e fui dar com os pensamentos em lugares mais divertidos. Fiquei ali despercebida do fluxo de gente apressada, as buzinas de reclamações constantes e os semáforos que ordenam sempre “siga”.

Nessa antiprodução eu fiz mais por mim do que se estivesse em velocidade máxima. Então, Sr. Destino, recolha suas multas que estou em dia com minha vida. Que o caminho seja longo, porém, divertido. E é por isso que recomendo uma quebra de regras vez ou outra para fazer a seriedade saber quem é que manda. 


Na passarela

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[Por Carol Freitas]


Das obrigações diárias, corriqueiras e rotineiras que nos assombram nesta vida de meu Deus, a troca de trajes pedida pelas situações com as quais somos obrigados a lidar, exige de nós uma habilidade sem tamanho. Ou melhor, com tamanho: GG, XG, plus size! Temos que ser mutantes de uma moda particular. Um luxo. E para algumas dessas situações, eu me troco com prazer.

Para lidar com a jovem senhora mal educada no ônibus, que não estava nem aí pra quem estava atrás e precisava descer, vesti o melhor da minha educação e desfilei a elegância de um silêncio para as palavras desnecessárias que ela proferiu para os passageiros que precisavam descer no mesmo lugar que eu. Para a atendente da loja, que não estava nem aí para as minhas perguntas a respeito das mercadorias, achando talvez que eu não levaria nada e ela estaria perdendo tempo, me vesti com o meu mais arrojado modelito paciência, e como um monge tibetano concluí a minha meta de escolher o que eu quisesse até cansar a minha beleza. A minha e a dela. Para a recepcionista da clínica que não estava nem aí para a minha dor dia desses antes de um exame, eu me vesti de toda a fúria e intolerância existentes no planeta para deixar bem claro para ela que eu não estava ali pedindo um favor, e sim usufruindo de um direito que eu pago caro para ter. Esse traje foi escolhido para fazer jus ao fato lógico de que meu corpo não estava nem aí para problemas administrativos que me impediam de realizar o procedimento. Visto-me assim quase sempre quando me deparo com a má vontade gratuita de algumas pessoas.

Costumo também me vestir com aquele figurino ‘sem noção’ para lidar com os igualmente sem noção, com eles sempre uso a tática do espelho: sou o que eles são naquele momento; esse tipo de gente gosta de se ver nos outros, daí eu facilito pra eles. Só ando com um pouco de medo dessa roupinha repetida, eles se multiplicam feito Gramilins. Já para as situações que insistem em me colocar frente a frente com quem pensa (só pensa) que está um patamar acima de todo mundo, uso qualquer roupa, só troco os sapatos: salto alto, bem alto. Olhar nos olhos deles faz com que o traje não tenha a menor importância. Soberba não distingue reação, portanto não adianta você se vestir de nenhuma. E por aí vai. O mundo vai pedindo e você vai se trocando. A passarela pede e você desfila, rebola, dança valsa! Vai caminhando e se divertindo. Corre-se o risco de ficar cafona vez ou outra, mas fazer o quê?

Viver se tornou uma espécie de situação social adaptável. Dá vontade de responder aos berros toda vez que ouvir o Gonzaguinha entoando os versos-pergunta ‘e a vida, e a vida o que é, diga lá meu irmão?’, assim: - a vida? A vida é um animado e caloroso baile. À fantasia.


*Imagem