[Por Carol Freitas]
Dos discursos
demagogos e hipócritas que a gente costuma ouvir por aí, o que mais desperta o
meu olhar de egípcia é aquele de quem julga cada atitude do outro como fator
decisivo para as mazelas do mundo. Qualquer meia opinião ou meia atitude em
benefício próprio já te transformam num monstro terrível, sem alma e coração,
egocêntrico e sem a menor preocupação com o universo.
Manifestei, em uma
rede social, no melhor estilo desabafo pessoal, a minha insatisfação com o
serviço de vendas de ingressos para um festival de música, coisa que muitas
outras pessoas fizeram também, e pronto: bastou isso para aparecer um bando de
cidadãos perfeitos desfiando um verdadeiro rosário de coisas do tipo: ‘se a
população se preocupasse mais com a educação, com a fome, com o desemprego, com
a saúde e etc, etc, etc, mas estão reclamando porque não conseguem um
ingresso...que país é este, ó céus, ó vida!’. E, antes disso, quando a cantora
famosa assumiu seu casamento com outra mulher, o que não faltou foi gente para
dizer que ela estava desmoralizando o conceito de ‘família tradicional’, que o
país está sendo dominado por este ‘tipo’ de gente e coisa e tal. Suspiro
profundo de preguiça.
Moro num país
tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza(!), né? Mas
sei muito bem que ele faz parte do terceiro mundo, é subdesenvolvido, tem
sérios problemas políticos, e a lista, se eu for continuar, crescerá e muito.
Eu me preocupo e me mantenho inteirada das coisas que acontecem por aqui, mas
aí deixar de viver, deixar de sonhar, deixar de me divertir e viver uma vida de
resignação e me sentir culpada cada vez que a minha maré for contrária à
realidade dele, não. Não, mesmo. Não, três vezes. Os problemas pelos quais o
país passa, desde que Cabral aportou por aqui, não serão agravados e nem
passarão a ser menos importantes por causa da minha vontade e a de mais um monte
de gente de assistir a um showzinho de rock, nem pelo casamento entre duas
mulheres.
Para falar a verdade,
eu não tenho e nem nunca tive pretensão nenhuma de salvar o mundo. De salvar
nada mesmo. Nunca me imaginei nem tentei estar à frente de nada para trazer
mais alento à nação. Acho que se tivesse nascido super heroína, eu ia ter um
treco daqueles de saber que eu tinha que sair da minha bat-caverna,
ou de qualquer outro esconderijo secreto para garantir a existência de
terceiros. Tenho consciência de que isso não é nada louvável, mas não há
problema algum: não tenho interesse nessa área mesmo. Nem vou ter. O meu teste
vocacional deu outro resultado. Mundo por mundo, prefiro passar os dias
salvando o meu. A minha existência. Quando dá até salvo outras, mas é por pura
displicência mesmo e por elas fazerem parte da minha, então acabam entrando no
pacote. E isso não é egoísmo. Exageros à parte, será que é tão difícil assim
entender que cuidar da sua própria vida, estar em dia consigo mesmo já dá uma
baita ajuda para todo o resto? E reivindicar um servicinho melhor de
entretenimento e lazer não transforma ninguém em um louco alienado, pode ter
certeza. Isso é saudável. O que não é saudável é ser radical a este ponto, isso
não resolve nada. Ser (apenas) ativista virtual, também não. Julgar as atitudes
alheias, menos ainda. Ah, e panfletar o seu autoflagelo e ultraje por essas
mesmas atitudes é nauseante. Autopromoção com humanidades me fazem ter muitas
dúvidas a respeito do seu espírito solidário.
Sim, eu posso até
lutar por um direito coletivo, mas também quero uma diversão individual. Sim,
eu quero um país limpo, seguro, com a educação em dia, mas também quero dançar
o dia todo numa festa e não ser taxada por isso. Quero viver num Brasil
civilizado, onde as relações sejam verdadeiramente livres e respeitadas em
todas as suas formas, e que isso seja problema de cada um e não uma afronta
social. E quero continuar acreditando no amor, na igualdade, na liberdade de
expressão e claro que, consequentemente, em milagres também.
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