Sou dessas


[Por Carol Freitas]

Testemunhei uma cena engraçada na primeira semana do ano: duas mulheres na rua conversando sobre os 'seus'. Não era preciso prestar muita atenção na conversa, dado o volume no qual ela era proferida. Perguntavam uma à outra se tinham se dado 'bem' no réveillon, no que uma delas respondeu: 'eu me dei bem sim, aquele lá que eu arrumei tem um carro e uma moto. O que você conseguiu, tem o que?' Pausa. Engoli a seco o meu silêncio e mastiguei as palavras que queriam saltar da minha boca. 2012 e, sim: os sentimentos (sentimentos??) ainda são os mesmos. Que pena, ainda existem mulheres dadas a este tipo de 'conquista'. E que pena , de novo: a recíproca existe e também é verdadeira.  Essa não é uma exclusividade feminina. A fúria materialista não escolhe sexo.

Não vamos generalizar, mas vamos nos envergonhar! Ok, vocês podem não ter se ofendido, mas eu, pobre mortal, infeliz com esse tipo de regressão, me ofendi. Desculpem-me mas, como dizem por aí: sou dessas. Sou dessas que acham que é uma burrice, daquelas de tamanho XG, que uma mulher ainda pense em homens como a salvação da sua existência humana. Cadê o amor? Amor, sabe, aquele negócio antigo, mas que não te a obriga a ser igualmente antigo para cultuar. Sou dessas que pensam que, lá atrás, um monte de outras mulheres lutaram e dedicaram suas vidas para a nossa evolução dentro de uma sociedade culturalmente conservadora, e que elas não merecem tamanho desrespeito e abandono de combate, logo por nós, suas sucessoras nascidas no futuro!

Futuro...taí, talvez as duas mocinhas da conversa estivessem pensando no futuro (delas, é claro. E um futuro motorizado, né? Tá certo, sem piadas...), mas será que elas não conhecem outra forma de garantia não? Será que não lhes apresentaram a escola? A faculdade? Despertador às 6 da manhã? Não, não vou nem entrar no mérito da lavagem cerebral da mídia, que conta aquela historinha patenteada de que basta um bumbum bem feitinho para o mundo ser seu num zás! Isso é assunto pra outra história, daquelas que rendem. Mas quer saber? Acho que nem merecem mais ibope. 

Sou dessas que acham que homens e mulheres são iguais desde sempre e para sempre, e que não querem se tornar (apenas) uma escada de vida um do outro. Não acho que a vida tem que ser um eterno filme de amor e também sei que o problema é de cada um, e que esse tipo de pensamento ainda toma conta de algumas mentes (pequenas) desse mundo.

Mas tudo bem, tô por aí esperando com fé pra testemunhar o dia em que nós, seres humanos, vamos nos encantar com o charme que vem da ideia de sermos livres e capazes de lidar com alguma forma, mesmo que primitiva, de independência. Talvez, você que me lê agora, vai dizer que eu estou, praticamente, acreditando em uma utopia, mas não tem problema eu sou assim mesmo. Que boba, né? Duas mulheres comemorando suas ‘conquistas’ individuais e eu aqui, com essa ideia retrógrada de ainda pensar no coletivo. 

*Imagem retirada do daqui

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