Coisa de mulher???




Jovens mães falavam das peripécias de suas filhas adolescentes. Uma contava que a filha havia exigido um “peep toe” para ir a uma festa e ria contando o quanto a garota se esforçava para manter o equilíbrio sobre aqueles saltos.

Rapidamente, a conversa muda de foco. Os jovens pais começam a falar do quanto é difícil acompanhar o vocabulário que traduz o universo feminino. Com simpatia, falavam da sua dificuldade em diferenciar echarpe, cachecol, pashmina, lenço e canga. E que só as operações da Polícia Federal conseguiam ter nomes mais esdrúxulos que os de alguns acessórios.

A questão não é que a mulher invente tudo isso. É um esquema muito maior, muito mais organizado e que polícia nenhuma seria capaz de nominar. Collants se tornaram bodies com a mesma voracidade que a babosa virou aloe vera, o Lollo virou Milkbar, as Havaianas se tornaram elitistas e carregam até cristais swarovsky. E assim o velho ganha ares de novo e nisso findam-se as razões para o querer ter.

O que não é novo pra ninguém é que é tarefa de sobrevivência do mercado inventar novas necessidades. Tornar tudo descartável e substituível, fetichizar o consumo. É o bom e velho Marx rindo da gente em cada prateleira, quando a gente não se satisfaz mais com o bege e compra o nude. Quando o pink ganha mais cor que o cor-de-rosa.

Isso sem falar nos resgates. Há pouco, as saias balonês da década de 80 estiveram em alta. Hoje, os vestidos, os poás, os óculos de gatinha da década de 50 retornam com glamour e ganham o status de vintage. E você arrasada porque não conservou o guarda-roupas da sua avó.

Tem lugar pra todo mundo: vilões, cúmplices, vítimas. Não é capricho, nem “mulherzice”. Ou o ser masculino também não se deixa seduzir pelos tunnings, pelas cervejas importadas e tudo mais? Quando se fala de consumo, o recorte é de classe e não de gênero. Mas muito mais que se encaixar num rótulo é preciso clareza pra distinguir a escala de valor entre ser e ter. Pés no chão. De mule, escarpin, pippe toe, ou rasteiras.

Imagem retirada daqui.

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