
Mais um dia normal como outro qualquer. Você acorda, se arruma e vai cuidar da vida quando,de repente, conhece ele. Bonito, cheiroso, simpático, estiloso.Vocês começam a conversar e você descobre que o moço é leitor de Hemingway, Leminski; fã de Tom Jobim e Kubrick. E além disso, ele ainda escreve poesia e toca violão. Você então sente que encontrouo bilhete premiado: é ele! A ideia se apodera como vírus e durante várias semanas você só consegue pensar que logo irão se apaixonare passarão as tardes comendo pipoca no cinema, aplaudindo opôr-do-sol e discutindo Caetano. Quem sabe não terão dois filhos?*Você já está imaginando que nome dar às crianças quando, poracaso, vem o choque de realidade: você descobre que ele é gay.
Sim, é isso mesmo. O homem dos seus sonhos é gay e não há nada que você possa fazerquanto a isso. Aquele colega de quarto na verdade tem algo mais ecomo você não percebeu isso antes? E então você começa a selembrar de todos os detalhes que passaram despercebidos e se começa a se envergonhar do decote ousado que usou na última balada e elenem olhou. E da vez que você jogou charme despreocupadamente investindo nos sorrisos e olhares que aprendeu na última edição daquela revista feminina e ele apenas te cumprimentou educadamente. E daquela outra, quando você avançou mais um pouco e chegou a dizer aele o quanto era incrível e não recebeu nem mesmo um “obrigado”como resposta. Não, ele não era tímido, afinal das contas. Ele sónão poderia nunca se interessar por você.
E o que fazer? Essasituação provavelmente já aconteceu a muitas mulheres e um indício disso era a antiga comunidade no pré-histórico Orkut onde milhares de moças se uniram em prol do mesmo desespero: “Os homens perfeitos são gays!”. A capa, a imagem de uma mulher gritando. Os menos imaginativos podem estar pensando, “ora, mas então isso significa que um homem bonito, sensível, fã de música, cinema e poesia é necessariamente gay? Quanto preconceito! Eu conheço/sou um cara assim e...” não, não vamos por esse caminho. Não estou dizendo que homens com essas ou aquelas características são gays. O caso é que muitas de nós buscamos homens que não tenham vergonha de assumir o seu prezado “lado feminino” e no caminho acabamos inconscientemente nos deixando encantar por aqueles que poderiam mais ser nossas melhores amigas do que namorados. E talvez isso aconteça por um questão bem simples de ponto de vista: enxergamos apenas o que queremos e deixamos de notar que o interesse dele em discutir com você a nova música da Alanis Morissette e aquele poster da Amélie Poulain que ele pendurou no quarto eram menos um diferencial e mais um referencial. E resta à pobre alma sonhadora a tarefa de decidir se lamenta a situação ou se ri dela.
E se eu falo é porque já aconteceu comigo. Decidi me declarar e ele decidiu me corresponder. E ainda que soubesse do seu gosto, hum, diferente (para ele, em suas palavras, era “Deus no céu e Madonna na Terra”), eu me policiava para não fazer “julgamentos preconceituosos”. A relação não passou do primeiro dia e eu sofri e me lamentei até entender de fato o que havia acontecido. Não o culpo. Lidar com a sexualidade na nossa sociedade ainda é complicado.
Cometendo o mesmo erro mais de uma vez, cheguei a me ver iludida em pensamentos cor-de-rosa mesmo com todos os alertas dizendo: “pare!”. Arrisquei alguns truques da revista feminina e outros da minha cabeça para sofrer algum pequeno constrangimento ou o silêncio absoluto. Ri do meu próprio ridículo. Agora, quando percebo a cilada iminente, penso no que Belchior já dizia em 76: as aparências não enganam, não.
*Citação a canção "Vagalumes Cegos", de Cícero Lins.

Sei bem como é isso!
ResponderExcluiras aparências não enganam não...
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