Um dia você acorda e faz parte do mundo, embora ainda não saiba: seu primeiro choro é pura ingenuidade. Um dia você acorda, seu café aguarda sobre a mesa e um beijo de bom dia é breve despedida antes de ir à escola. Um dia você acorda e tem pelos pelo corpo. Um dia, sangra. Um dia, cravos a irromper a pele outrora lisa. Um dia, se apaixona. Dois, três...
Um dia, você passa no vestibular. Um dia, provas e insônias – estas para sempre? Um dia, estágio; n’outro, primeiro emprego. Depois, trabalho. Depois, trabalho. Depois, cansaço e mais trabalho. Um dia, perde a hora.
“Que dia é hoje?”, um dia se pergunta. E este lugar agora, que era antes sempre ou nunca, se desenrola em nostálgicas pungências, como espécie de piano alemão tocado numa noite escura. Você se desespera [?]. Está órfã[o] de repente. Você tem vinte e cinco anos, poucos pares de calçados, alguns jeans, camisetas e bastantes dívidas – à espera de que o Universo lhe indenize pela existência parca!
Você olha em volta; está só. Sorri como num choro. E, enquanto isso, as coisas [não] se finalizam absolutas. Como se não soubesse [e não sabe] o que fazer com aquilo, volta-se para dentro de si mesmo, meio magricela, feito um bebê retornando ao útero. E parece que não resta muito de você nesse exagero literário de viver. Mas, lá no fundo, bem no fundo, você é valente, persistente... e, no outro dia, sobrevive.


Nunca se é completamente... ser-se é tornar-se... sempre estamos nos tornando... Esse abandono é nossa própria condição... a condição humana... porque, para mim, é disso que se trata... mais do que a condição da mulher... é a condição de todos nós, seres humanos, que nascemos como se fôssemos arremessados... sim fomos arremessados à existência, não tivemos escolha... não há liberdade para nascer... uma vez no mundo, lutamos por exercê-la, não sem custo, não sem suor...porque há a sociedade, porque há o trabalho e as obrigações... e descobrimos que não se pode exercer a liberdade fora do social (lê-se de um espaço coercitivo)... eis o paradoxo: liberdade não pode ser pensada sem algum grau de coerção... de governo... viver é um esforço contínuo contra o autoabandono... isso vale para os casais também... de resto, todos passarão... Eis nossa condição: sem escolha entre nascer (ser) e não-ser, certos de nossa finitude e condenados a buscar um sentido... Imersos no Mistério, tendo apenas a intangibilidade do sentido em que nos ancorar...
ResponderExcluirBeijos, amiga! Belas reflexões sobre o "ser-se".
perfeito, amigo!
ResponderExcluirbelas as suas reflexões, sempre me levando além...
beijos
Isto me lembrou "tempo perdido" do Legião. Muito bom!
ResponderExcluir