Por Ígor Andrade*
Envelheci de repente. Ainda pouco sabia de todos os horários do colégio. Hoje esqueci o relógio, em casa. Só agora entendi o propósito dos recreios. Parece que sinto a falta de tempo, mesmo quando tenho tempo de sobra. A obra é o momento, e só minto quando lamento - o tormento que é pensar. Penso logo reclamo. Vai acabar o ano e não acabo este texto. Sou lento e só entendo minha idade de amanhã. Eu nunca estou cheio de me encher com dúvidas. Eu até deveria duvidar mais, de mim.
Envelheci antes do corpo. Entorto a tarde para compreender as curvas da lembrança. À tarde penso que sou escritor, e escrevo o que me vem no juízo, ou escrevo o que não vejo na loucura. O silêncio de agonias tem cura, e tem cara de um sujeito sério. A tarde tarda o que é cedo. Pense você no que é medo e no que é dor. O medo da dor. A cor dos passos. Todo dia sinto medo antes de anoitecer. A noite é ser, e sou afinal.
O céu que se afoga em vermelho. A hora que se afaga no sofrimento de qualquer um. Uma senhora que topa do outro lado da rua. A calçada que é um tipo de memória nua, que todo mundo ignora. Ponto. Estou pronto. Vou embora. Não, a senhora não caiu. E nem eu caí... em mim. Como deve ser o fim, do abismo? (Eram os deuses, toda e qualquer queda?) A esmo o empirismo de empilhar epifanias.
Toda quinta eu ia correr perto do mar. E a senhora? A senhora continuou sua vida. Suave caminhar de longas datas. Eu já me acostumei a observar o povo para não esquecer que escrevo para me observar. A escrita é o lar. E eu me leio. O doente só é feio quando não morre. E o melhor do dia pode ser o meio - da noite. Até a madrugada escrevo mais sobre o que não entendi durante a tarde. Quem diria que o que é belo só precisa sorrir?
*Ígor Andrade escreve no blog https://fugadointelecto.blogspot.com


"O céu que se afoga em vermelho" belíssima metáfora para um fim de tarde. O texto de Igor Andrade vem cheio de belezas, mais além das reflexões.
ResponderExcluiruma tessitura deliciosa de acompanhar...
ResponderExcluirbelíssimo texto!
Dá-lhe, Ígor!
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